Manhã
Sento-me num dos bancos de jardim que contornam o relvado verdejante à luz da manhã. Deixo o Sol acariciar e penetrar-me os poros. Fecho os olhos, sentido o poder do momento. Centenas, ou talvez milhares de pássaros cantam ininterruptamente à minha volta, ocultados pelas folhas das árvores. À minha frente, passa um casal entrado já na idade, caminhando em passo desportivo. Pouso a meu lado a embalagem com os Pastéis de Belém que comprei para ti e tiro o meu bloco de notas para rever alguns apontamentos. Começo a folheá-lo, parando aqui e ali, atentando num ou noutro tópico. De repente, detenho-me numa página que me pergunta: “Sabes uma coisa?”. Nada mais está lá escrito. Nesta página, com a questão rabiscada a preto no meio do vazio, nada mais se vê, a não ser o fundo da página que se encontra dobrado, como se alguém tivesse fechado mal o bloco. Endireito a folha, para a alisar e revela-se a resposta à pergunta inicial, oculta pela dobragem deliberada. Um sorriso ilumina o meu ser quando leio: “És muito especial!”.
O que é a Vida?
É o caminho... É a Felicidade de viver o Momento!
Almedina
Subitamente, dou por mim sem nada para fazer. É meio-dia e ainda não tenho fome para almoçar. Resolvo ir passear. Atravesso a Avenida Fontes Pereira de Melo, esquivando-me dos carros que loucamente voam, fugindo do sinal luminoso vermelho. Entro no Atrium Saldanha e olho em redor, depositando o meu olhar aqui e ali. Vejo um casal jovem sorridente de mãos dadas caminhando lentamente. Sentada num banco de pedra, está uma mulher elegantemente vestida, com uma leve blusa branca que casualmente lhe cobre a pele, e uma saia direita cor de carvalho da qual surgem as suas delineadas pernas cobertas por meias de vidro que terminam nuns sapatos castanhos de salto alto. Desvia os seus longos cabelos lisos e castanhos para um dos lados do pescoço, enquanto concentra toda a sua atenção no jornal que segura nas mãos. Quase esbarrando comigo, uma adolescente passa, rindo-se às gargalhadas com uma amiga que lhe dá a mão. A sua aparência é, no mínimo, curiosa: sapatos rasos vermelho vivo, meias pretas sob uma micro-saia também preta e casaco também ele vermelho vivo. Cabelo cortado de forma indisciplinada e
piercing no lábio inferior culminam a aparência rebelde cuidadosamente escolhida. Os meus passos levam-me às escadas rolantes que subo. Entro na Almedina. Há qualquer coisa de mágico nesta livraria. Não sei bem o que é… Mas algo me chama sempre que por aqui passo. Serão os livros iluminados pelas grandes janelas de vidro? É uma livraria grande, mas na qual não me sinto perdido como na FNAC. Não é uma livraria escura e cansativa como a Bertrand. Aqui, os livros ganham vida nas prateleiras que os acolhem. Nesta livraria, sou levado a explorar secções completamente novas para mim. Há sempre algo de desconhecido e atractivo. O meu olhar deambula pelas prateleiras. Hoje sinto-me filosófico. Perco-me nas lombadas que enunciam Kant, Espinosa, Sartre… Pego num livro ao acaso e folheio-o parando aqui e ali. Sinto-me como um viajante que se desloca maravilhado no meio de realidades diferentes… Passeio de pensamento em pensamento, de reflexão em reflexão. A filosofia deixa-me inebriado de tanta questão. É como uma droga que nos toma e que depois não conseguimos deixar. Fujo depois para a secção de literatura, para respirar um pouco melhor… Mergulho nas descrições deliciosas dos romances de Eça de Queiroz. Não. Eça não se folheia. Lê-se com mais calma. Volto a depositar o livro na estante. Mas há um livro cuja capa me abre a curiosidade. É lindíssima! Sobre um fundo preto, vê-se as curvas do esbelto corpo de uma mulher nua, deitada no vazio. Trata-se de
Um Amor Feliz de David Mourão-Ferreira. Levo-o à caixa para pagar e saio da livraria, ansioso pelo momento em que poderei sentar-me num banco de jardim, ou simplesmente, num degrau de entrada de um prédio, para começar a ler o livro que repousa no fundo do saco que pende da minha mão.
Ponto de fuga
Um guarda-chuva, um jornal e um túnel…
Sacudo o guarda-chuva ao entrar na estação de comboios e retiro um jornal de uma pilha. Inadvertidamente, molho uma das páginas na lona do guarda-chuva, enquanto duas das novas ardinas dos diários gratuitos conversam animadamente, distraídas do seu trabalho. Atravesso, nas pontas dos pés, o lago que se formou na estação, tentando não ensopar a bainha das calças. Subo as escadas rolantes imobilizadas. Chegando à plataforma, caminho alguns metros até que me detenho à espera do próximo comboio. Passam alguns minutos… Olho impacientemente para o relógio. As pessoas acumulam-se na plataforma de embarque, fazendo filas mais ou menos desordenadas. Brinco com a pequena poça formada pela água que escorre do meu guarda-chuva, fazendo desenhos sem sentido. Finalmente, o anúncio vocal da chegada do comboio ecoa, materializando-se numa voz despersonalizada. O comboio chega, abre as portas e as pessoas começam a entrar… Sento-me num dos lugares vagos e abro o jornal numa página ao acaso. Passo os olhos na diagonal pelo conteúdo das diversas páginas, prendendo-me aqui e ali com determinado tópico que me chama mais a atenção. As estações vão-se sucedendo… Entram e saem pessoas de cada vez que o comboio pára. Olho pela janela… O céu está de um branco hostil, descarregando a chuva que se abate sobre tudo. As ribeiras saltam, colidem, rasgam as terras com violência, enquanto as carruagens do comboio atravessam a ponte. Estação após estação, aproximamo-nos do túnel. Sente-se a expectativa a brotar por trás dos semblantes carregados dos passageiros de hora de ponta. De repente, o céu branco dá lugar às semi-trevas do túnel. Um senhor de cabelos brancos tapados por um boné castanho olha de um lado para o outro, exibindo o seu sorriso desdentado. Eu pouso o jornal sobre o colo, e observo a janela. Fileiras de cabos fixos na parede escoltam o trajecto dos caminhos-de-ferro alumiados por inúmeras lâmpadas fluorescentes que se sucedem à medida que passamos. Volto a olhar para dentro da carruagem. Praticamente todos os passageiros cessaram o que faziam para observarem a renascida novidade. Alguns minutos depois, a luz exterior volta a entrar pelas janelas e a nossa vista abre-se para contemplar a grandeza da velha estação que volta a ter sangue a correr pelas suas artérias.
Fuga momentânea
Ainda colado à minha condição privada de Liberdade, aproximo-me de um banco junto do postigo gradeado. Sento-me, olhando a rua, aparentemente desprovida de movimento. A chuva começa a cair, atravessando as grades e escorrendo pelo vidro. Lentamente, aqui e ali, bate uma gota no chão soltando uma doce música de Inverno. Tudo o resto é silêncio… As únicas presenças deste início de tarde são a chuva que cai dançando ao vento, e eu que a observo embalado num estado misto de paz e de desejo de sair… Sim, quero sair daqui… Formulando o desejo em voz alta e sobrepondo-o à pluvial melodia, sinto-me a ganhar força… Sinto que sou capaz de atravessar a janela, as grades e sair para a rua deserta… Atravesso a estrada e começo a correr… Fujo do meu cativeiro… Fujo da penitência que me é imposta por nomes sem cara. Fujo de tudo aquilo que me prende a uma condição miserável e despersonalizada. Abraço a chuva, o vento. Abraço a Liberdade!
Mas depressa compreendo… Ainda não… Ainda aqui estou… Ainda não posso sair… Mas falta pouco…
Em breve…
Deixaste-me uma flor
Vieste, passageira com a madrugada... Plantaste uma flor e foste-te embora... Tão depressa como vieste...
Vou colocar a flor ao Sol e contemplá-la, amando-te...