Momentos
Os momentos que aqui deixo em palavras, deixo em imagens ali:
Momentos.
Debaixo do guarda-chuva

Pelas ruas de Lisboa, deixamo-nos conduzir, mal enxergando o percurso que seguimos... Somos quatro debaixo do guarda-chuva que nos tapa ligeiramente a visão: dois rapazes e duas raparigas. A chuva cai, molhando-nos a roupa e as malas plenas de apontamentos universitários. Apenas as nossas cabeças permanecem minimamente secas. Os rapazes que seguem à frente marcam o ritmo da passada, enquanto as raparigas, que vão atrás, tropeçam, saltam e correm para tentar manter a formação protegida das gotas de água. Entretanto, com o esforço de nos mantermos todos debaixo do guarda-chuva desatamos a rir, lançando olhares mútuos desesperadamente divertidos...
A chuva, às vezes, sabe bem...
A verdade liberta
É incrível como as pessoas fogem de tudo para não dizer duas verdades. Têm medo de quê? De ficarem mal vistas? De ferirem o equilíbrio da sua vida de mal-dizer? E o que mais me assusta é que eu próprio, por vezes, acabo por me deixar levar por essa atitude... Sinto-me conspurcado por essa constatação, como se estivesse a vestir roupa suja que não me pertence... Eu não sou assim, bolas! É verdade que não gosto muito de conflitos... Mas também não gosto de rancores e de dizer mal pelas costas. É esgotante e não leva a lado nenhum... Do que eu gosto é de enfrentar um problema de frente e de fazer tudo por resolvê-lo ali mesmo no terreno. Assim é que se avança e se cresce!
Hoje, disse uma verdade importante! E senti-me bem! Pode não ter servido para nada, mas senti-me bem! Senti-me eu.
Conversa nocturna
Sorvo as tuas palavras nocturnas. A conversa prolonga-se para lá da uma da manhã... Os teus olhos brilham com a intensidade que queres imprimir ao que dizes. Falamos de tudo. A despedida já se prolonga por quase uma hora. Em frente à minha casa estamos ambos relutantes em abandonar a nossa partilha de histórias. Não queremos abrir a porta do carro para cada um seguir o seu caminho por esta noite...
Manhã
Sento-me num dos bancos de jardim que contornam o relvado verdejante à luz da manhã. Deixo o Sol acariciar e penetrar-me os poros. Fecho os olhos, sentido o poder do momento. Centenas, ou talvez milhares de pássaros cantam ininterruptamente à minha volta, ocultados pelas folhas das árvores. À minha frente, passa um casal entrado já na idade, caminhando em passo desportivo. Pouso a meu lado a embalagem com os Pastéis de Belém que comprei para ti e tiro o meu bloco de notas para rever alguns apontamentos. Começo a folheá-lo, parando aqui e ali, atentando num ou noutro tópico. De repente, detenho-me numa página que me pergunta: “Sabes uma coisa?”. Nada mais está lá escrito. Nesta página, com a questão rabiscada a preto no meio do vazio, nada mais se vê, a não ser o fundo da página que se encontra dobrado, como se alguém tivesse fechado mal o bloco. Endireito a folha, para a alisar e revela-se a resposta à pergunta inicial, oculta pela dobragem deliberada. Um sorriso ilumina o meu ser quando leio: “És muito especial!”.
O que é a Vida?
É o caminho... É a Felicidade de viver o Momento!
Almedina
Subitamente, dou por mim sem nada para fazer. É meio-dia e ainda não tenho fome para almoçar. Resolvo ir passear. Atravesso a Avenida Fontes Pereira de Melo, esquivando-me dos carros que loucamente voam, fugindo do sinal luminoso vermelho. Entro no Atrium Saldanha e olho em redor, depositando o meu olhar aqui e ali. Vejo um casal jovem sorridente de mãos dadas caminhando lentamente. Sentada num banco de pedra, está uma mulher elegantemente vestida, com uma leve blusa branca que casualmente lhe cobre a pele, e uma saia direita cor de carvalho da qual surgem as suas delineadas pernas cobertas por meias de vidro que terminam nuns sapatos castanhos de salto alto. Desvia os seus longos cabelos lisos e castanhos para um dos lados do pescoço, enquanto concentra toda a sua atenção no jornal que segura nas mãos. Quase esbarrando comigo, uma adolescente passa, rindo-se às gargalhadas com uma amiga que lhe dá a mão. A sua aparência é, no mínimo, curiosa: sapatos rasos vermelho vivo, meias pretas sob uma micro-saia também preta e casaco também ele vermelho vivo. Cabelo cortado de forma indisciplinada e
piercing no lábio inferior culminam a aparência rebelde cuidadosamente escolhida. Os meus passos levam-me às escadas rolantes que subo. Entro na Almedina. Há qualquer coisa de mágico nesta livraria. Não sei bem o que é… Mas algo me chama sempre que por aqui passo. Serão os livros iluminados pelas grandes janelas de vidro? É uma livraria grande, mas na qual não me sinto perdido como na FNAC. Não é uma livraria escura e cansativa como a Bertrand. Aqui, os livros ganham vida nas prateleiras que os acolhem. Nesta livraria, sou levado a explorar secções completamente novas para mim. Há sempre algo de desconhecido e atractivo. O meu olhar deambula pelas prateleiras. Hoje sinto-me filosófico. Perco-me nas lombadas que enunciam Kant, Espinosa, Sartre… Pego num livro ao acaso e folheio-o parando aqui e ali. Sinto-me como um viajante que se desloca maravilhado no meio de realidades diferentes… Passeio de pensamento em pensamento, de reflexão em reflexão. A filosofia deixa-me inebriado de tanta questão. É como uma droga que nos toma e que depois não conseguimos deixar. Fujo depois para a secção de literatura, para respirar um pouco melhor… Mergulho nas descrições deliciosas dos romances de Eça de Queiroz. Não. Eça não se folheia. Lê-se com mais calma. Volto a depositar o livro na estante. Mas há um livro cuja capa me abre a curiosidade. É lindíssima! Sobre um fundo preto, vê-se as curvas do esbelto corpo de uma mulher nua, deitada no vazio. Trata-se de
Um Amor Feliz de David Mourão-Ferreira. Levo-o à caixa para pagar e saio da livraria, ansioso pelo momento em que poderei sentar-me num banco de jardim, ou simplesmente, num degrau de entrada de um prédio, para começar a ler o livro que repousa no fundo do saco que pende da minha mão.